domingo, 15 de junho de 2014

Suicídio

Tudo era como deveria ser. Tudo estava dentro do esperado da normalidade. Tudo era correto e fazia sentido. A vida era feita de etapas e isso não era difícil de entender. Você nasce, cresce, se reproduz, envelhece e morre. Você estuda, trabalha, se casa, tem filhos, fica velho e morre. Eu não sei se todos foram educados como eu. Mas cresci num meio em que os adultos sempre falaram com certeza sobre as coisas. Como se as coisas estivessem decididas e fossem imutáveis. Existe um plano e você apenas precisa segui-lo. Eu já não tenho certeza se isso foi me passado assim ou se apenas foi a maneira que interpretei as "ordens". Eu sempre achei que os adultos sabiam o que estavam fazendo e sabiam o que estavam dizendo. Apesar de eu sempre ter discordado do sistema de estudar tanto e trabalhar tanto, eu obedeci as regras impostas. Recentemente eu não consegui mais obedecer essas regras que foram estipuladas por não sei quem que a maioria segue. Eu procurei outros caminhos, outros modos de vida alternativa. Eles existem, mas nenhum me agradou.  Eu olhava para as pessoas e todas me pareciam loucas, sem saber o que estavam fazendo. Eu procurava sentido em tudo. E nada me fazia sentido. Eu buscava coerência nas pessoas, mas via que elas não o eram. As pessoas não são coerentes e racionais. Eu sofri muito com essa descoberta. Não sabia se eu estava louca, ou eram os outros. Mas depois eu percebi que a vida não tem mesmo sentido, não tem mesmo significado. Eu entendi que trabalhamos tanto e estudamos porque precisamos disso. Não porque existe algum sentido, mas porque se não morreríamos de tédio. Uma vida fácil não tem a menor graça. Um dia de descanso não tem a menor graça se todo dia for dia de descanso. Nós complicamos a vida para nos mantermos vivos. A pessoa que diz que busca a felicidade, não sabe o que busca. A felicidade plena, o conforto pleno, a conquista de todos os objetivos é o pior castigo que alguém pode querer. Nós inventamos nossas dores, nossos medos, nossa angústia, para depois sairmos vitoriosos dela. Todas as pessoas que estão vivas, escolheram estar vivas. Mesmo morrendo de fome, mesmo com doenças terríveis e cruéis. Mesmo sendo escravizadas e exploradas. A vida busca pela vida. A pessoa que pensa em suicídio está cega, como eu já estive. É alguém sem esperança, que não consegue ver outros caminhos, outras possibilidades. É alguém que acha que já sentiu tudo o que já poderia ter sentido. Que não sente prazer nas tarefas que realiza. Que não ama ninguém, ou que ama demais. É alguém que se sente inútil, que se sente incompreendido. É alguém que as vezes tem tudo e sente como se não tivesse nada. É alguém que acha que vê o que ninguém vê. Que acha que entende o que ninguém mais entende. Eu já passei por fases suicidas mais de uma vez. Em todas elas  eu me permiti me dar uma chance. Considerar como uma fase. Hoje, eu comparo esses momentos aos momentos que as aranhas trocam de exoesqueleto. Momentos em que precisamos crescer, e para isso devemos sair da zona de conforto, deixar nossos moldes de vida para trás e reconstruir uma nova proteção. Mas esse período de "troca de exoesqueleto" é sofrido e doloroso, ficamos frágeis e vulneráveis e tudo pode acontecer. Quem nunca trocou de exoesqueleto, não vai te entender, não via entender a sua necessidade e nem o que você está fazendo. Nem você entende, pois você nunca passou por isso antes. E se você não conseguir sobreviver até o final, você nunca vai entender o que vem depois. E é por isso que eu não desisto da vida, porque eu acho que é muita prepotência minha que sendo tão jovem, eu já saiba de tudo, já tenha vivido tudo e já tenha experimentado tudo. Hoje eu vejo que a vida é muito mais do que ser feliz. Viver é sofrer também e isso não é ruim como dizem por aí. Todos os caminhos que percorremos, nos levam a algum lugar. Todos os sentimentos que temos nos ensinam alguma coisa. Estar vivo é estranho, mas pode ser divertido, principalmente quando você se dá conta que somos todos loucos aqui. Que ninguém é melhor, nem pior que ninguém. E que observar as pessoas que não entendem isso é muito engraçado.

2 comentários:

  1. Eliz, sentir td que há pra ser sentido me parece ser seu objetivo de vida. É a frase que seus diários mais escutam. Acredito que seja improvável sentir sensações boas sem as ruins acompanharem. A vida é um risco. Acho que temos 2 opções: viver a vida sem riscos: logo sem ambas sensações, ou intensamente, e nesse caso sentiremos de tudo, boas e más sensações. Vc acredita que a primeira forma de viver é um tipo de suicídio? Ou a segunda que seria?

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  2. Obrigada pelo comentário, sinto que você me entende,. Já pensei nisso, que só consigo sentir as sensações boas na intensidade que sinto por saber sentir as ruins. Beijos.

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